Tradutor, traidor

“O tradutor tem de ser um dicionário que contenha as palavras conhecidas e as palavras não conhecidas”

TRADUZIR É SUBSTITUIR palavras que não se conhecem por palavras conhecidas. Trata-se de uma delicada combinação de ciência e arte. Ciência porque o tradutor, antes de mais nada, tem de ser um dicionário que contenha as palavras conhecidas e as palavras não conhecidas. Caso contrário a tradução não será possível. Para evitar os enganos os linguistas da Universidade de Lagado (aquela das “Viagens de Gulliver”) chegaram a propor que as palavras fossem substituídas pelas coisas que elas significam.

Um caso cômico que se encontra no delicioso livro “No País das Sombras Longas”. Esse título, em si mesmo, é um teste para seus conhecimentos. Que país é esse em que as sombras são sempre longas? Qual é a condição astronômica para que isso aconteça? Eis aí uma pergunta que deveria cair no Enem… É um livro delicioso de aventuras, em meio a gelos sem fim, ursos, focas, cães, trenós e costumes diferentes, entre eles o anzol para pegar as pulgas que vivem dentro das roupas de couro costuradas sobre o corpo…

Pois minha leitura foi interrompida por essa frase estranha: “Siorakidsok era paralítico da cintura para baixo e tinha ouvidos duros”. Ouvidos duros… Não fez nenhum sentido. Até que me vali de um truque: tentei fazer a tradução ao contrário, do português para o inglês. Ouvidos duros, ao contrário: “hard of hearing”. O homem era surdo…

Logo na página seguinte essa frase me parou de novo: “A um canto via-se uma grande calha de pedra pela qual todos passavam as suas águas servidas, valiosas para o curtimento de couro…” Suas águas servidas? O que é isso? Usei então o mesmo método de decifração. Traduzi ao contrário: “passavam suas águas servidas”, “pass water”, que quer dizer fazer xixi…

A tal calha de pedra era um mictório…

Agora, alguns versos do poema de “The Rock”, de T.S.Eliot.
“The Eagle soars in the summit of Heaven,
The Hunter with his dogs pursues his circuits.
O perpetual revolution of configured stars.
O perpetual recurrence of determined seasons…”
Esses versos parecem descrever uma cena de caça, a águia voando nas alturas, sobre os campos um caçador com seus cães trilha os seus caminhos. E foi assim que o tradutor traduziu o texto.

“A Águia paira sobre os píncaros dos céus, o Caçador com seus cães rastreia-lhe o trajeto. Ó perene revolução de estrelas consteladas…”

Parece que a tradução está certinha. A não ser pelo fato de que Eliot diz que ele está descrevendo o caminho dos astros no céu: a revolução permanente das estrelas consteladas. É esse fato que dá a chave para a tradução.

“Eagle” não é uma águia: é uma constelação cujo nome em português é “Áquila”. O “Hunter” é o nome em inglês para a constelação que é atravessada pelas “Três Marias”, o “Órion”. E os cães não são cachorros de caça. São as constelações ao lado do Órion, o Cão Menor e o Cão Maior, na qual se encontra o Sirius, a estrela mais brilhante do céu.

A tradução certa, então, seria “A Áquila paira sobre os píncaros dos céus, o Órion com seus cães rastreia-lhe o trajeto…” Assim saímos da companhia do caçador, da águia e dos cães e somos devolvidos às estrelas.. F I M.

Fonte: RUBEM ALVES Folha, 10/8/2010